Muanha da Liberdade - Fundadora da Livraria Universo dos Livros e do FORDEP- Forum de Desenvolvimento Empresarial e Pessoal, Palestrante.
Há um provérbio africano que diz que, quando morre um ancião, morre uma biblioteca. Essa sabedoria antiga carrega uma verdade universal: o conhecimento é o bem mais precioso que podemos cultivar e transmitir. E se há uma ferramenta capaz de nos ligar a esse vasto património de saber, essa ferramenta é o livro.
Por que ler continua a ser essencial
Numa era dominada por ecrãs, notificações e informação fragmentada, a leitura profunda tornou-se quase um ato de resistência. Ler não é apenas decifrar palavras numa página — é exercitar a mente, expandir horizontes, desenvolver empatia e fortalecer a capacidade de pensar de forma crítica e independente. E a ciência tem vindo a confirmar, com dados concretos, aquilo que os leitores sempre souberam por intuição: ler transforma-nos, literalmente.
Os benefícios de cultivar o hábito da leitura, com números que comprovam
Reduz o stress de forma comprovada. Uma investigação conduzida pelo neuropsicólogo David Lewis, da Universidade de Sussex, no Reino Unido, revelou que apenas seis minutos de leitura silenciosa são suficientes para reduzir os níveis de stress em até 68%, diminuindo a frequência cardíaca e aliviando a tensão muscular. Para efeito de comparação, o mesmo estudo constatou que ouvir música reduz o stress em 61%, tomar uma chávena de chá em 54% e caminhar em 42% — ou seja, ler supera todas estas outras formas comuns de relaxamento.
Prolonga a esperança de vida. Um estudo publicado na revista científica Social Science & Medicine pela Escola de Saúde Pública da Universidade de Yale acompanhou 3.635 pessoas com mais de 50 anos ao longo de 12 anos. Os resultados mostraram que quem lia livros durante 30 minutos ou mais por dia viveu, em média, 23 meses a mais do que quem não lia — mesmo depois de ajustados fatores como idade, sexo, escolaridade e saúde. Este efeito protetor foi mais forte entre quem lia livros do que entre quem lia apenas jornais ou revistas, o que os investigadores atribuem ao maior envolvimento cognitivo exigido pelos livros.
Desenvolve a empatia e a compreensão do outro. Um estudo de referência de David Kidd e Emanuele Castano, da New School for Social Research, publicado na revista Science em 2013, testou o efeito da leitura de ficção literária sobre a chamada “Teoria da Mente” — a capacidade de reconhecer e interpretar os pensamentos e emoções de outras pessoas. A conclusão foi que quem lê ficção literária desenvolve maior capacidade de compreender a complexidade do outro, aumentando a empatia, a compaixão e o respeito pela diferença. Tentativas posteriores de replicar este resultado específico têm mostrado efeitos mais modestos, mas a ideia central — de que a leitura de histórias nos treina a “entrar” na perspetiva alheia — continua amplamente sustentada por outras investigações na área.
Constrói o futuro académico das crianças. Um dos estudos mais citados da literatura sobre desenvolvimento infantil, conduzido pelos investigadores Betty Hart e Todd Risley, concluiu que, ao longo dos primeiros quatro anos de vida, as crianças de famílias com menos recursos ouvem cerca de 30 milhões de palavras a menos do que crianças de famílias com mais recursos. Esta diferença de exposição à linguagem reflete-se depois no desempenho escolar, já que o vocabulário e as competências linguísticas que uma criança tem aos três anos são um forte indicador das competências que terá aos nove ou dez anos. Ou seja: ler e conversar com uma criança desde os primeiros meses de vida é um dos investimentos mais decisivos que se pode fazer no seu futuro.
Para além destes dados, a leitura continua a ser um dos meios mais acessíveis de crescimento profissional, ligação cultural e afirmação pessoal — especialmente para a mulher africana contemporânea, que encontra nos livros um espaço de liberdade só seu, conquistado página a página.
Como adquirir (ou recuperar) o hábito de ler
Criar uma rotina de leitura não exige grandes mudanças de vida — exige, sobretudo, intenção, paciência e pequenos passos consistentes.
• Comece verdadeiramente pequeno. os benefícios começam a surgir com pouco tempo: os seis minutos do estudo de Sussex ou os trinta minutos do estudo de Yale são metas perfeitamente alcançáveis no dia a dia mais ocupado.
• Escolha o que gosta, não o que “deve” ler. o hábito nasce do prazer, não da obrigação.
• Reduza o atrito. tenha sempre um livro por perto — na mala, na mesa de cabeceira, no carro, na secretária do escritório.
• Substitua, não apenas acrescente. troque 15 minutos de redes sociais por 15 minutos de leitura. Ler antes de dormir em vez de percorrer o telemóvel melhora também a qualidade do sono.
• Estabeleça metas realistas e celebre-as. um livro por mês já representa doze livros por ano — uma transformação real.
• Crie um ritual agradável. associe a leitura a um momento de prazer — um chá, uma luz suave, um canto tranquilo da casa.
• Junte-se a uma comunidade de leitores. partilhar impressões sobre livros ou integrar um clube de leitura mantém a motivação viva.
• Diversifique e experimente sem culpa. ficção, autoajuda, biografias, poesia — se um livro não estiver a cativar, não há problema em abandoná-lo.
• Use os áudiolivros como aliados. para quem tem uma rotina muito preenchida, ouvir um livro também conta como leitura.
• Volte a começar sempre que for preciso. interromper o hábito não apaga o progresso anterior. Retomar, sem culpa, é o que importa.

Como cultivar o hábito da leitura nas crianças
O amor pelos livros não nasce por acaso — constrói-se, com paciência, desde os primeiros anos de vida. E, como os números mostram, quanto mais cedo se começa, maior é o impacto no desenvolvimento linguístico e escolar da criança.
• Comece cedo, mesmo antes de saberem ler. ler em voz alta a bebés e crianças pequenas cria desde cedo uma associação positiva entre o livro e o afeto, e é também uma forma direta de combater a lacuna de vocabulário identificada por Hart e Risley.
• Seja o exemplo. as crianças imitam o que veem, não o que lhes é dito.
• Deixe a criança escolher. as crianças leem mais quando o livro é escolhido por elas, de acordo com os seus próprios interesses.
• Crie um cantinho da leitura. um espaço pequeno e aconchegante, com livros ao alcance da criança.
• Torne a leitura um hábito partilhado, não uma tarefa escolar. ler por prazer, sem cobranças, é o que semeia o gosto duradouro.
• Vá além do livro. converse sobre a história, pergunte o que a criança achou, imagine finais alternativos.
• Celebre o progresso. reconhecer quando uma criança termina um livro reforça a motivação para continuar.
• Ofereça livros como presente. reforça a mensagem de que os livros são valiosos e desejáveis.
Conte com o apoio certo na escolha dos livros: na Universo dos Livros, os pais encontram um vasto leque de opções pensadas especialmente para cada fase do crescimento dos filhos — desde os grandes clássicos da literatura mundial, adaptados em edições próprias para o público infantil, até à literatura infantil angolana e internacional mais atual, com histórias que encantam e educam. Há ainda uma seleção de livros de desenvolvimento pessoal adaptados para crianças, que ajudam os mais pequenos a desenvolver inteligência emocional, autoconfiança e valores desde cedo. Ter este acesso facilitado é muitas vezes o primeiro passo para transformar a leitura, de tarefa distante, em hábito natural e desejado.

O papel das livrarias na construção deste hábito
Ter acesso fácil a bons livros é determinante para sustentar este hábito, tanto em adultos como em crianças. Espaços como a Universo dos Livros, com as suas lojas espalhadas por Luanda, nascem precisamente da convicção de que o livro deve estar ao alcance de todos — não como um luxo, mas como uma companhia diária. Mais do que vender livros, o objetivo é semear a cultura da leitura, oferecendo curadoria, acolhimento e um espaço onde cada leitora, leitor e futuro leitor se sinta em casa entre as páginas.

Uma página de cada vez
O hábito da leitura não se constrói da noite para o dia — nem nos adultos, nem nas crianças — mas cada página lida é um passo dado rumo a uma mente mais livre, mais crítica e mais rica, com benefícios que a ciência já consegue medir em meses de vida, em pontos de vocabulário e em percentagens de stress a menos. Que este seja o convite: comece hoje, com um livro à sua escolha, e leve também os mais pequenos consigo nesta jornada.
FONTES
— Lewis, D. (2009). Galaxy Stress Research. Mindlab International, Universidade de Sussex, Reino Unido.
— Bavishi, A., Slade, M. D., & Levy, B. R. (2016). A chapter a day: Association of book reading with longevity. Social Science & Medicine, Universidade de Yale.
— Kidd, D. C., & Castano, E. (2013). Reading Literary Fiction Improves Theory of Mind. Science, 342, 377-380.
— Hart, B., & Risley, T. R. (1995). Meaningful Differences in the Everyday Experience of Young American Children.







