Durante muito tempo, eu não vivi eu sobrevivi. E sei que não fui a única.
Fomos ensinadas a ser fortes muito cedo.
A aguentar;
A não reclamar;
A não sentir demais;
Porque, para muitas de nós, ser mulher e ainda mais, ser mulher africana nunca foi leve.
Foi responsabilidade.
Foi resistência.
Foi sobrevivência.
Crescemos a ver mulheres que não podiam parar.
Mulheres que carregavam tudo:
A casa.
Os filhos.
As dores.
Os silêncios.
E sem perceber nós replicamos.
Aprendemos que sentir era um luxo.
Que chorar era fraqueza.
Que falar sobre o que dói era desnecessário.
Aprendemos a continuar mesmo quebradas. E eu continuei.
Entrei no automático.
Fazia tudo o que era esperado.
Resolvia tudo.
Estava sempre em alerta.
Como se descansar fosse perigoso. Como se perder o controlo significasse perder tudo.
Por fora eu parecia força. Mas por dentro eu me sentia exausta.
Eu sentia, mas não sabia o que estava a sentir.
E isso talvez seja uma das maiores dores da nossa realidade:
Sentimos muito, mas fomos pouco ensinadas a compreender o que sentimos.
Vivemos num estado de sobrevivência porque foi isso que nos foi ensinado.
A antecipar.
A controlar.
A dar conta.
A não falhar.
Mas ninguém nos ensinou a parar.
A escutar.
A cuidar de nós.
E então, a vida começa a cobrar.
Os padrões repetem-se.
As relações cansam.
O corpo fala.
A mente grita.
As feridas, que um dia foram ignoradas começam a vir à superfície. E já não dá para fugir.
E foi nesse lugar desconfortável, cru e real que eu comecei a ganhar consciência.
Consciência das minhas feridas.
Das minhas ausências.
E das partes de mim que ficaram esquecidas enquanto eu tentava ser tudo para todos.
E pela primeira vez eu olhei para mim. Sem máscaras, sem fuga e sem pressa.
E foi aí que algo mudou.
Porque quando deixamos de sobreviver começamos a descobrir. A descobrir quem somos além das exigências, além dos papéis, além das expectativas.
Foi aí, que eu me conectei ao meu propósito. Não como algo distante, mas como algo que nasceu exatamente das minhas feridas.
Hoje, a minha vida não é perfeita. Mas é consciente.
Hoje eu não vivo em constante estado de alerta. Não preciso controlar tudo.
Não preciso provar o meu valor todos os dias. Hoje eu sinto e compreendo o que sinto.
E isso trouxe algo que durante muito tempo me faltou:
Paz.
Mas esta não é só a minha história.
É a história de muitas de nós.
Mulheres que aprenderam a sobreviver antes mesmo de aprender a viver.
Mulheres que foram fortes porque não tinham outra opção.
Mulheres que carregam mais do que mostram.
E talvez esteja na hora de questionar:
Até quando vamos continuar a confundir sobrevivência com força?
Até quando vamos continuar a ignorar o que sentimos para dar conta de tudo?
Parar não é fraqueza.
Sentir não é fraqueza.
Cuidar de si não é fraqueza.
É consciência.
Porque a sobrevivência protege, mas é a consciência que liberta.
E talvez o verdadeiro poder da mulher africana não esteja apenas na sua força.
Mas na sua coragem de, finalmente sentir.
Maura Francisco – Terapeuta em emoções, especialista em interações humanos e cuidado com a pessoa.
Instagram: Maura_Francisco
WhatsApp: +244 936262909







