A cantora britânica Dua Lipa deu mais um passo em sua relação com a literatura ao inaugurar, na cidade do Porto, em Portugal, a Manifesto Library, uma biblioteca permanente dedicada a livros que, em diferentes momentos da história, foram censurados, proibidos ou retirados de circulação por desafiarem governos, religiões, sistemas políticos e padrões sociais.
Instalada na centenária Livraria Lello, considerada uma das mais belas livrarias do mundo, a iniciativa reúne cem títulos escolhidos por seu impacto cultural e pela defesa da liberdade de expressão. O projeto nasceu da parceria entre a livraria e o Service95, plataforma literária criada pela artista, e propõe uma reflexão sobre o direito à leitura em um momento em que a censura volta a crescer em diversos países.
A própria Dua Lipa definiu o espaço como “um santuário para livros que desapareceram, para autores cuja coragem revelou estruturas de poder e controle e para leitores que se recusam a aceitar que alguém decida o que podem ou não ler”. A coleção está organizada em quatro eixos: Poder, Controle, Voz e Memória.
Autores e obras que fazem parte da coleção entre os principais nomes presentes na biblioteca estão:
• Margaret Atwood – O Conto da Aia (The Handmaid’s Tale);
• George Orwell – 1984;
• Salman Rushdie – Os Versos Satânicos;
• Marjane Satrapi – Persépolis;
• Toni Morrison – O Olho Mais Azul (The Bluest Eye);
• Alice Walker – A Cor Púrpura;
• Maya Angelou – Eu Sei Por Que o Pássaro Canta na Gaiola;
• Harper Lee – O Sol é Para Todos;
• Reginald Dwayne Betts – Felon;
• Olga Tokarczuk – obras selecionadas da autora vencedora do Nobel.
A lista reúne ainda escritores cujos livros foram banidos por abordarem temas como racismo, sexualidade, identidade de gênero, direitos humanos, autoritarismo, violência política e liberdade religiosa. Em alguns casos, os próprios autores sofreram perseguições, ameaças ou até perderam a vida em consequência de suas obras.
A abertura da Manifesto Library acontece em um contexto mundial marcado pelo aumento da censura a livros em escolas, bibliotecas e instituições públicas. Em diferentes países, obras literárias passaram a ser retiradas das estantes por tratarem de diversidade, direitos civis, memória histórica ou críticas a regimes políticos.
Ao reunir essas publicações em um único espaço, Dua Lipa transforma a biblioteca em um manifesto em defesa da liberdade intelectual. A mensagem é clara: ler também é um ato de resistência.
A iniciativa reforça que a literatura não existe apenas para entreter, mas para provocar perguntas, preservar a memória coletiva, confrontar injustiças e ampliar o pensamento crítico.
A criação da Manifesto Library representa um marco simbólico porque devolve visibilidade a livros que, em algum momento, alguém tentou silenciar. Em vez de esconder essas obras, o projeto as coloca no centro do debate público, lembrando que toda tentativa de censura revela o poder transformador da palavra escrita.
Num mundo marcado pela polarização, pela circulação acelerada de desinformação e por novas formas de controle sobre o acesso ao conhecimento, a iniciativa de Dua Lipa reafirma um princípio fundamental: sociedades democráticas dependem de leitores livres.
Ao escolher celebrar justamente os livros que desafiaram o poder, a cantora amplia sua atuação para além da música e demonstra que a cultura continua a ser uma das ferramentas mais eficazes na defesa da liberdade, da diversidade de ideias e da preservação da memória histórica.
Elizandra Santos
E-mail: geral@elizandrasantos.com







