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As pessoas não fingem depressão. Elas fingem estar bem.

Vivemos numa sociedade que aprendeu a desconfiar da dor invisível.

Quando alguém quebra uma perna, recebe cuidado.

Quando alguém quebra por dentro, recebe perguntas.

 

“Mas você tem tudo.”

“Você sorri tanto.”

“Você trabalha, sai, conversa…”

“Não parece deprimido.”

 

E talvez seja exatamente esse o problema: a depressão raramente “parece” depressão.

 

A maior parte das pessoas deprimidas não passa os dias chorando em posição fetal. Muitas continuam trabalhando, cuidando dos filhos, publicando fotos, fazendo reuniões, respondendo mensagens e até sorrindo. Existe uma exaustiva atuação psíquica acontecendo diariamente para sustentar uma aparência de normalidade enquanto, internamente, algo desmorona em silêncio.

 

As pessoas não fingem depressão.

Elas fingem estabilidade para sobreviver num mundo que pune vulnerabilidade.

 

A psicanálise compreende que o sofrimento psíquico nem sempre aparece de forma explícita. Muitas vezes, ele se mascara através da produtividade excessiva, do humor constante, da hiperindependência, da necessidade de agradar, do silêncio emocional ou da incapacidade de pedir ajuda. O sujeito aprende cedo que demonstrar dor pode significar rejeição, abandono ou humilhação. Então ele cria personagens psíquicos para continuar existindo.

 

Sigmund Freud, em seus estudos sobre melancolia, já diferenciava a tristeza comum de um sofrimento mais profundo, em que o sujeito perde não apenas algo externo, mas também partes de si mesmo. Na melancolia, há uma ferida narcísica silenciosa. O indivíduo sente um esvaziamento interno, uma autodesvalorização intensa e uma dificuldade quase inexplicável de existir com leveza.

 

Mas a sociedade contemporânea não tolera pausas emocionais. Ela exige performance.

 

Byung-Chul Han, ao analisar a sociedade do desempenho, afirma que o sujeito moderno se explora voluntariamente até o esgotamento. Hoje, adoecer em silêncio se tornou comum porque há uma pressão constante para parecer forte, funcional, motivado e bem-sucedido. O sofrimento precisa ser escondido para que o indivíduo continue a ser aceito socialmente.

 

Por isso, muitos desenvolvem aquilo que Donald Winnicott chamou de “falso self”.

 

O falso self é uma estrutura psíquica criada para adaptação. É a versão socialmente aceitável da pessoa. Ele sorri quando quer desabar. Produz quando está emocionalmente esgotado. Cuida dos outros enquanto abandona a si mesmo. Parece forte, mas vive profundamente desconectado das suas próprias necessidades emocionais.

 

Há pessoas que aprenderam tanto a fingir estar bem que já não conseguem mais identificar o que sentem de verdade.

 

E esse talvez seja um dos aspectos mais cruéis da depressão silenciosa: ela não grita. Ela anestesia.

 

Nem toda depressão aparece em lágrimas.

Algumas aparecem em excesso de trabalho.

Outras em isolamento emocional.

Outras em irritabilidade constante.

Outras em insônia.

Outras em compulsões.

Outras em um sorriso permanente que nunca alcança os olhos.

 

Existe um tipo de sofrimento que se torna socialmente invisível porque o indivíduo continua funcionando. E pessoas funcionais também adoecem.

 

Aliás, muitas vezes, são justamente as mais funcionais as que estão mais cansadas.

 

A psicanálise entende que sintomas não surgem do nada. Eles são tentativas do psiquismo de comunicar algo que não conseguiu ser simbolizado. A depressão pode ser compreendida como um colapso interno produzido por dores acumuladas, perdas não elaboradas, excesso de exigência, abandono emocional, traumas silenciosos e uma profunda desconexão do desejo.

 

Muitas pessoas deprimidas não querem morrer.

Elas apenas não suportam mais continuar a viver da maneira como estão a viver.

 

Mas em vez de acolhimento, recebem julgamento.

 

Existe uma violência muito grande em exigir que alguém prove a própria dor para merecer cuidado. O sofrimento psíquico não precisa se tornar extremo para ser legítimo. Nem toda pessoa deprimida vai verbalizar claramente que está em sofrimento. Algumas sequer conseguem nomear o que sentem.

 

Porque há dores que não foram ensinadas a falar.

 

Muitos cresceram a ouvir frases como:

 

“Engole o choro.”

“Você é forte.”

“Isso passa.”

“Tem gente pior.”

“Pare de drama.”

 

Com o tempo, aprendem que sentir é perigoso. Então reprimem. E aquilo que é reprimido não desaparece; retorna em forma de sintoma.

 

Freud dizia que aquilo que não é elaborado retorna.

Às vezes como ansiedade.

Às vezes como vazio.

Às vezes como depressão.

 

O corpo fala o que a alma silenciou por tempo demais.

 

E há algo profundamente solitário em precisar parecer bem o tempo inteiro. A máscara emocional cansa. Sustentar uma versão saudável de si enquanto internamente existe exaustão psíquica consome energia vital. Por isso tantas pessoas relatam sentir um cansaço que o sono não resolve.

 

Não é apenas cansaço físico.

É desgaste emocional acumulado.

 

A depressão silenciosa frequentemente vem acompanhada de culpa. A pessoa se culpa por não conseguir sentir alegria, por não corresponder às expectativas, por não conseguir explicar o que sente. Ela começa a acreditar que há algo errado em sua existência.

 

E então se esforça ainda mais para parecer normal.

 

Sorri.

Produz.

Socializa.

Ajuda todo mundo.

E vai morrendo aos poucos por dentro sem que ninguém perceba.

 

A sociedade romantizou pessoas fortes sem perceber quantas delas só aprenderam a sobreviver sozinhas.

 

Nem toda independência é saúde emocional.

Às vezes, é defesa psíquica.

 

Muitas pessoas que dizem “eu resolvo tudo sozinho” aprenderam, na verdade, que pedir ajuda nunca foi seguro.

 

A psicanálise não trata apenas sintomas. Ela escuta aquilo que existe por trás deles. Escuta o não dito, os vazios, as repetições, as dores infantis, os mecanismos de defesa, os abandonos emocionais e os lutos que nunca puderam ser vividos.

 

Porque ninguém adoece emocionalmente do nada.

 

Há histórias por trás de cada silêncio.

Há feridas por trás de cada excesso.

Há dor por trás de muitas pessoas “fortes”.

 

Talvez precisemos parar de perguntar por que alguém deprimido não aparenta estar mal. A pergunta mais humana seria:

 

Quanto sofrimento uma pessoa precisou suportar para aprender a esconder tão bem a própria dor?

 

Nem sempre quem mais precisa de ajuda será quem mais demonstra. Às vezes, quem mais sofre é justamente quem mais se esforça para não incomodar ninguém.

 

E isso deveria nos fazer refletir profundamente sobre o tipo de humanidade que estamos a construir.

 

Uma humanidade onde sentir virou fraqueza.

Onde descansar gera culpa.

Onde vulnerabilidade causa vergonha.

Onde pessoas precisam adoecer em silêncio para continuarem a ser aceitas.

 

As pessoas não fingem depressão.

Elas fingem que conseguem continuar.

Fingem que suportam.

Fingem que não dói.

Fingem porque têm medo de serem julgadas, abandonadas ou invalidadas.

 

Mas ninguém consegue sustentar uma máscara emocional para sempre.

 

Em algum momento, o corpo cobra.

A mente cobra.

A alma cobra.

 

E talvez o primeiro passo para uma sociedade emocionalmente mais saudável seja aprender a escutar além das aparências.

 

Nem todo sorriso significa paz.

Nem toda produtividade significa equilíbrio.

Nem todo silêncio significa força.

 

Às vezes, significa apenas que a pessoa cansou de tentar explicar a própria dor para quem nunca quis realmente compreender.

 

Elizandra Santos

 

E-mail: geral@elizandrasantos.com

 @ellizandra_santoos

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