• Blog Post 1

Ninguém muda ninguém, mas todos deixam marcas

A crença de que podemos mudar alguém é uma das ilusões mais comuns nas relações humanas. Pais tentam mudar filhos, parceiros tentam mudar parceiros, líderes tentam mudar equipas e até terapeutas, por vezes, são vistos como agentes diretos da mudança. No entanto, sob a ótica da Psicanálise, a transformação genuína é um processo interno, singular e intransferível.

 

Ninguém muda ninguém.

 

A mudança acontece quando o sujeito, consciente ou inconscientemente, encontra razões para reorganizar a sua forma de pensar, sentir e agir. Ela surge a partir de conflitos internos, experiências emocionais significativas e da elaboração de conteúdos que antes estavam reprimidos ou desconhecidos.

 

Isso não significa, porém, que não exercemos influência sobre os outros.

 

Pelo contrário.

 

Embora não possamos determinar a mudança de alguém, podemos ser o motivo que desperta essa transformação.

 

Sigmund Freud já demonstrava que os seres humanos são profundamente influenciados pelos vínculos afetivos que estabelecem ao longo da vida. Desde a infância, constituímos nossa identidade através das relações que mantemos com figuras significativas.

 

Essas relações deixam marcas psíquicas que moldam crenças, comportamentos e percepções de mundo.

 

Na Psicanálise, esse fenômeno aparece em conceitos como identificação, transferência e introjeção. Em outras palavras, incorporamos aspectos das pessoas que admiramos, tememos, amamos ou rejeitamos.

 

Dessa forma, mesmo sem perceber, influenciamos constantemente aqueles que convivem conosco.

 

Uma palavra pode inspirar.

 

Um exemplo pode encorajar.

 

Uma atitude pode despertar consciência.

 

Mas também o contrário é verdadeiro.

 

Uma crítica destrutiva pode gerar insegurança.

 

Uma ausência pode provocar feridas emocionais.

 

Uma postura tóxica pode perpetuar ciclos de sofrimento.

 

Todo ser humano ocupa um lugar dentro de sistemas: família, comunidade, empresa, igreja, círculo de amizades ou sociedade.

 

Nossa presença nunca é neutra.

 

Estamos constantemente a emitir mensagens, a transmitir valores e a influenciar emoções.

 

A grande questão não é se influenciamos ou não.

 

A verdadeira questão é: como estamos a influenciar?

 

Estamos a contribuir para o crescimento ou para a limitação das pessoas ao nosso redor?

 

Estamos a ser fonte de encorajamento ou de desmotivação?

 

Estamos a promover consciência ou reforçando padrões inconscientes?

 

A forma como escolhemos impactar o ambiente reflete diretamente o nosso próprio nível de autoconhecimento.

 

O psicanalista Carl Gustav Jung afirmava que aquilo que não trazemos à consciência retorna como destino. Essa reflexão nos convida a perceber que a nossa influência sobre os outros está profundamente relacionada ao nosso próprio processo de desenvolvimento.

 

Pessoas que trabalham as suas dores tendem a gerar relações mais saudáveis.

 

Pessoas que desenvolvem inteligência emocional tendem a inspirar crescimento.

 

Pessoas que vivem com autenticidade tendem a despertar autenticidade.

 

A transformação do outro não está sob nosso controle, mas a qualidade da nossa presença está.

 

Podemos ser uma referência.

 

Podemos ser uma inspiração.

 

Podemos ser um exemplo.

 

Podemos ser o encontro que desperta uma nova perspectiva.

 

Ninguém muda ninguém porque a mudança é uma decisão interna, construída na subjetividade de cada indivíduo. Entretanto, todos nós possuímos um extraordinário poder de influência.

 

Somos capazes de despertar reflexões, provocar questionamentos, inspirar novas possibilidades e até servir como catalisadores de grandes transformações.

 

Por isso, vale a pena perguntar diariamente:

 

“Que marcas estou a deixar nas pessoas que cruzam o meu caminho?”

 

Porque talvez não sejamos os responsáveis pela mudança de alguém, mas podemos ser o motivo que levou essa pessoa a iniciar sua própria transformação.

 

Elizandra Santos

E-mail: geral@elizandrasantos.com

Instagram

@ellizandra_santoos

ARTIGOS RELACIONADOS