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Se o Mundial fosse sobre curar traumas geracionais, quem estaria na seleção campeã?

Imagine um campeonato em que não vencesse quem marcasse mais gols, mas quem tivesse coragem de olhar para a própria história.

 

Não haveria disputa por força física, velocidade ou talento. O troféu seria entregue à equipa que conseguisse transformar dor em consciência, silêncio em palavra e repetição em liberdade.

 

A seleção campeã não seria formada pelos que nunca sofreram.

 

Seria composta por aqueles que decidiram não transmitir aos filhos aquilo que receberam sem escolher.

 

O goleiro seria a Consciência, protegendo as novas gerações das antigas invasões emocionais. Aprendeu que nem todo medo pertence ao presente; muitos são ecos de experiências vividas pelos pais, avós e bisavós.

 

Na defesa estaria a Capacidade de estabelecer limites. Afinal, quem não aprende a dizer “não” acaba defendendo lealdades invisíveis que já não fazem sentido. Muitos permanecem presos a pactos inconscientes familiares, repetindo destinos apenas para manter um sentimento de pertencimento.

 

No meio-campo jogaria a Elaboração Psíquica. É ali que as emoções deixam de ser sintomas e passam a ser compreendidas. A psicanálise ensina que aquilo que não encontra palavras frequentemente encontra um caminho no corpo, nos relacionamentos ou nos comportamentos repetitivos. Elaborar é permitir que a experiência seja simbolizada em vez de apenas revivida.

 

Nas laterais estaria a Escuta, porque nenhuma transformação acontece sem que alguém possa contar sua história sem medo de julgamento. É pela fala que o sujeito reorganiza sua própria narrativa e cria novos significados para aquilo que viveu.

 

No ataque jogariam juntos a Responsabilidade Emocional e o Desejo Autêntico. Um deixa de culpar apenas o passado; o outro encontra coragem para viver uma vida que não seja apenas a continuação dos sonhos interrompidos da família.

 

O capitão da equipa seria o Autoconhecimento. Não aquele que promete perfeição, mas aquele que ensina a reconhecer as próprias faltas, desejos, conflitos e contradições.

 

E o treinador?

 

Seria a Coragem de enfrentar o inconsciente.

 

Porque é no encontro com aquilo que evitamos que muitas mudanças começam. A psicanálise mostra que o sofrimento tende a se repetir quando permanece inconsciente. Ao tornar conscientes certos padrões, ampliamos nossa possibilidade de escolha, ainda que o conflito nunca desapareça por completo.

 

No banco de reservas não haveria culpa, vergonha nem perfeccionismo. Esses já perderam muitos campeonatos dentro das famílias.

 

No lugar deles estariam a compaixão, a responsabilidade e a disposição para recomeçar quantas vezes fossem necessárias.

 

Talvez a maior vitória dessa seleção não fosse levantar uma taça.

 

Seria impedir que os traumas herdados continuassem a ser a herança emocional das próximas gerações.

 

Porque a verdadeira conquista não está em apagar o passado.

 

Está em fazer com que ele deixe de determinar, sozinho, o futuro.

 

Elizandra Santos

E-mail: geral@elizandrasantos.com

Instagram: @ellizandra_santoos

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