Há uma imagem no futebol que traduz uma das maiores lições sobre a existência humana: um atleta realiza uma jogada tecnicamente impecável. O tempo da corrida é preciso, a leitura do lance é correta, a finalização é inteligente e o goleiro é superado. Ainda assim, a bola não entra.
À primeira vista, o resultado parece contraditório. Afinal, se tudo foi feito da maneira correta, por que o gol não aconteceu?
A resposta está na própria essência do futebol: ele é um jogo de relações, de variáveis e de imprevisibilidades. Um pequeno desvio, um centímetro a mais ou a menos, a recuperação inesperada de um adversário ou até mesmo a trajetória da bola podem alterar completamente o desfecho de uma jogada perfeita.
Essa realidade nos convida a uma reflexão que ultrapassa as quatro linhas do campo.
Na vida profissional, muitas pessoas se qualificam, estudam, lideram equipes, entregam resultados e se dedicam com excelência. Ainda assim, uma promoção pode não acontecer, um projeto pode não ser aprovado ou uma oportunidade pode ser adiada. Isso não significa incompetência. Significa apenas que nem todas as variáveis estão sob nosso controle.
O mesmo acontece na vida pessoal. Há quem cultive relacionamentos com respeito, amor e dedicação, cuide da família, preserve valores e faça escolhas conscientes, mas ainda enfrente perdas, frustrações ou mudanças inesperadas. A qualidade das nossas ações não elimina a imprevisibilidade da vida.
Talvez um dos maiores equívocos da sociedade contemporânea seja acreditar que existe uma fórmula capaz de garantir o sucesso absoluto. Não existe.
O que existe é a responsabilidade sobre aquilo que nos pertence: nossa preparação, nossas escolhas, nossa ética, nossa coragem e a forma como respondemos aos desafios.
Quando compreendemos essa diferença, deixamos de medir nosso valor apenas pelos resultados e passamos a reconhecer a importância do processo. Afinal, perder uma oportunidade não significa perder a competência. Assim como um lance perfeito que não termina em gol não deixa de ser um grande lance.
A verdadeira maturidade está em continuar aperfeiçoando o que depende de nós, sem permitir que os imprevistos definam nossa identidade.
No futebol, na carreira e na vida, a excelência não está em controlar todos os resultados, mas em oferecer, a cada novo desafio, a melhor versão de si mesmo. Porque o imprevisível faz parte do caminho, mas a excelência continua sendo uma escolha.
* Imagem ilustrativa de um lance do atleta Vinícius Júnior na Copa do Mundo 2026, no jogo entre Brasil e Japão.
Anderson do Prado
Psicanalista | Especialista em Saúde Mental no Esporte







