A Associação Internacional de Produtores de Petróleo e Gás (IOGP) deu um passo fundamental na evolução da segurança operacional com o lançamento de suas directrizes focadas em Factores Humanos e Organizacionais.
Centralizado nas publicações do Relatório 810 (Human and Organizational Performance - HOP) e do Relatório 803 (Mental Wellbeing), o sector de Óleo e Gás ganha um ecossistema técnico robusto para integrar o desempenho humano à gestão de riscos.
Longe de ser uma pauta puramente de Recursos Humanos, a protecção do bem estar e o design de sistemas resilientes consolidam-se hoje como requisitos críticos para a segurança, produtividade e sustentabilidade da indústria.Abaixo, analisamos as principais directrizes estabelecidas por esses relatórios para a modernização da cultura de Segurança:
A Saúde Mental sob a Ótica da Segurança Operacional
Conforme detalhado no relatório IOGP 803, os desafios de saúde mental afectam uma parcela significativa dos trabalhadores da indústria. O documento estabelece que mitigar riscos psicossociais é um dever do empregador e uma camada essencial de proteção contra falhas catastróficas.
⦁ Indicadores Antecedentes (Os "Vasos Amarelos"): As organizações devem monitorar activamente os sinais precoces de desgaste, tais como o assédio psicossocial, a sobrecarga de demandas de trabalho e a falta de autonomia da força de trabalho.
⦁ Engenharia de Estabilidade: O design do ambiente de trabalho deve ser estruturado de forma a reduzir o estresse na raiz. A IOGP recomenda o uso de pesquisas de pulso periódicas (pulse surveys), cruzando dados de SMS (Saúde, Meio Ambiente e Segurança), Recursos Humanos, Ética e Medicina Ocupacional para prever crises antes que elas comprometam a segurança operacional.
2. O Impacto Decisivo do Comportamento da Liderança
O modelo de HOP (Human and Organisational Performance) da IOGP deixa claro que a governança corporativa e a cultura de segurança emergem directamente do comportamento da liderança. Estilos de gestão focados exclusivamente em metas numéricas, sem a devida atenção ao factor humano, tendem a criar ambientes psicologicamente inseguros e propensos a incidentes.
⦁ Foco Intencional em Bem-Estar: O cuidado com as pessoas não ocorre por acidente, ele precisa ser gerenciado activamente. Quando líderes demonstram empatia e gerenciam desafios de forma justa, a sustentabilidade operacional aumenta.
⦁ Segurança Psicológica como Alavanca: Ambientes onde os trabalhadores se sentem seguros para fazer perguntas, relatar anomalias e propor soluções criam um ciclo de melhoria contínua. O engajamento real acontece quando o trabalhador percebe que suas contribuições de facto influenciam o resultado e a estrutura da organização.
3. Mudança de Mentalidade: O Erro como Parte do Sistema
Um dos pilares mais importantes do relatório IOGP 810 é a premissa de que o erro humano é normal e inevitável. Em vez de focar no erro individual e na busca por culpados após um evento indesejado, a engenharia de resiliência foca em como o sistema falhou em absorver a falha.
⦁ Absorção de Pressão: As organizações precisam ser desenhadas para absorver pressões operacionais em vez de repassá-las directamente aos indivíduos na linha de frente.
⦁ Fortalecimento de Salvaguardas: Um pequeno desvio na operação pode gerar impactos severos. A abordagem de HOP exige identificar onde esses erros são mais prováveis de ocorrer e fortalecer as barreiras físicas, digitais e processuais (salvaguardas) para tolerar a falha humana sem que ocorra um acidente.
4. Implementação Prática e Novas Métricas de Desempenho
A implementação do HOP exige que as empresas substituam métricas meramente burocráticas ou reactivas (como a contagem pura e simples de cartões de observação) por metodologias que capturem como o trabalho realmente é executado no dia a dia.
A IOGP direcciona a medição do sucesso através do aprendizado com o trabalho normal, utilizando ferramentas como as Equipes de Aprendizado (IOGP Relatório 642). Os indicadores proativos sugeridos incluem:
⦁ Número de sessões de aprendizado estruturadas com equipes de linha de frente.
⦁ Volume de descobertas operacionais e gargalos identificados antes da ocorrência de incidentes.
⦁ Quantidade de melhorias e alterações de design/projeto implementadas a partir desses aprendizados.
⦁ Número de caminhadas de liderança focadas nas Regras de Ouro para salvar vidas (LSR-life saving rules), voltadas para o diálogo aberto e compreensão do trabalho real, em vez de auditorias de conformidade punitivas.
Conclusão
O futuro da sustentabilidade no sector de Óleo e Gás depende da habilidade das organizações em adoptar a linguagem e os princípios do HOP a partir do topo da organização. Com os desdobramentos previstos nestes relatórios , incluindo atualizações no gerenciamento de contratados (Relatório 423) e novas práticas recomendadas para Controle de Trabalho , a recomendação técnica é que as empresas operadoras e fornecedores leiam os guias na íntegra e iniciem a capacitação de seus líderes imediatamente. Mudar a cultura significa, fundamentalmente, projectar sistemas onde o ser humano seja protegido e capacitado a performar no seu melhor nível.
linkedin.com/in/suzana-neto-oliveira







